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Vamos começar falando mal de Barack Obama (yes, I can!) e o assunto não é a primavera-inverno no mundo árabe, mas justamente uma questão do Oriente Médio que está em todas as temporadas e é uma obsessão, não apenas do atual presidente americano, mas de seus predecessores. Ganha um bilhete (só de ida) para Trípoli quem acertar que é o impasse entre Israel e os palestinos. As convulsões de momento no mundo árabe não têm vínculo com este impasse tradicional na região, mas Obama se concentrou nele desde o começo de sua gestão e, obcecado com a frente palestina, foi apanhado de surpresa (continua apanhando) pela instabilidade regional. A bem da verdade, a surpresa foi geral. Estamos todos apanhando. Mas […]

Você está confuso, não? E é para estar. Estamos ainda aprendendo quais são as tribos líbias e já precisamos fazer o curso intensivo na Google University sobre quais são as envolvidas no conflito do Iêmen. Eu confesso que me confundo até para escrever Bahrein (onde vai o H?). A duração destas coisas dá medo. Nos anos 80, custei, mas aprendi o quem é quem das tribos e etnias no Afeganistão. O desafio continua presente naqueles cafundós. A confusão entrou no radar (já existia) quando os americanos, inimigos dos ocupantes soviéticos do Afeganistão, passaram a apoiar jihadistas, chamados de combatentes da liberdade. Gente que hoje está aí para combater a nossa liberdade. Inexplicável. Nem me peça, então, para explicar os posicionamentos […]

É fácil tomar posição em algumas questões cruciais. Quando Hugo Chávez (e hermanitos), o José Dirceu e o ditador de Guiné Equatorial (o tal do Teodoro, aquele que passou o último carnaval no Rio) consideram a Líbia, de Muamar Kadafi uma trincheira da luta antiimperialista, devemos ir para o outro lado. Mas o que é o outro lado na intervenção da Líbia? Existe a engenhosa posição alemã (abstenção não é neutralidade), os americanos fingindo que não são tão importantes (coisa de superpotência júnior na era Obama) e os franco-britânicos fingindo que são mais importantes do que são. Para a Liga Árabe, depende do horário e da posição das vírgulas no comunicado. Quanto aos russos, a posição é de indignação com […]

Durante semanas, eu publiquei textos de solidariedade (somos todos egípcios, iranianos, líbios, chineses, etc). Continuamos. Mas a crise esquenta no terreiro da Arábia Saudita. E aí somos cínicos e inconsistentes. Não estou ferrenho na minha solidaridade à ditadura da casa real Saud (seria vergonhosa tal atitude), mas tomo nota da complexidade da situação, que coloca o governo Obama numa saia justa e abre espaço para o Irã tirar vantagem. A narrativa de rebeliões no Oriente Médio e África do Norte tem variações. Alguns regimes jogam a toalha, como o da Tunísia, embora ainda não seja primavera no país. Outros botam para quebrar e matar. É mais fácil a gente também “descer o cacete” no cachorro louco Muamar Kadafi ou no […]

Como de hábito, devemos reagir com solidariedade e ansiedade (paternal, no meu caso) quando multidões de jovens saem às ruas pedindo democracia e o fim de ditaduras odiosas. No relativismo das coisas, Hosni Mubarak era um ditador suave, um opressor de segunda classe na sua categoria de gente. O desfecho até agora (sic) no Egito foi relativamente pacífico (cerca de 300 mortos) e existem promessas de uma transição democrática. Somente para ficar nas vizinhanças, há ditadores não apenas piores, mas que também não vacilariam em massacrar em escala pavorosa. Nem estamos falando o que poderiam fazer os chineses com um desafio frontal. Nunca se esqueçam da Praça da Paz Celestial, em Pequim, em junho de 1989. Mubarak era moderado e […]

Eu conheço o ritual. É momento de dizer: somos todos egípcios. Celebramos a partida de um Hosni Mubarak. Tipo desagradável. Se quisermos dar pose para o enxotado autocrata podemos chamá-lo de faraó. Mas Mubarak estava mais para o gênero de policial que resolvia os problemas na vizinhança a um preço. Havia segurança e muitas vezes era melhor nem perguntar como ele impunha lei e ordem. Agora existe festa na vizinhança, mas tambem muita inquietação com a partida do policial corrupto e brutal. Quem vai oferecer proteção? Uma garotada animada liderou o movimento para se livrar do policial, mas muitos bandidos estão fantasiados de mocinhos neste carnaval de libertação. Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se […]

Por que não é possível vibrar tanto com estes protestos nas cidades egípcias exigindo o fim da era Mubarak como nas jornadas nas cidades iranianas em junho de 2009, depois da farsa eleitoral que manteve Mahmoud Ahmadinejad no poder? Estão aí dois regimes igualmente detestáveis e movidos por maciços aparatos de segurança. Existem diferenças óbvias e elas ajudam a explicar menos vibração diante dos eventos egípcios, e por extensão, no resto do mundo árabe. O regime islâmico de Teerã tem convicções ideológicas antiocidentais, planos hegemônicos e ambições nucleares. Cabe reconhecer que tem também uma base popular. O regime Mubarak é meramente pusilânime e um vírus para sua própria população. Ironicamente, tem alguma serventia por ser um contraponto ao projeto iraniano, é uma […]

É uma grande emoção ver o povo nas ruas derrubando uma ditadura, um muro de Berlim ou um palácio extravagante. Esta ditadura da Tunísia do Ben Ali era verbete de almanaque com a repressão e a roubalheira. Mas a Tunísia não se enquadra no clichê. O povo nas ruas não derruba ditaduras no mundo árabe de autocratas, alguns até embalsamados no poder. O serviço costuma ser feito por algum coronel (muitas vezes até de patente inferior e que se autopromove a ditador) ou invasores estrangeiros. Na grande ordem ou desordem das coisas, a Tunísia é pequena e peso-pena no jogo estratégico. E nem sabemos qual será o desfecho desta revolta na medida em que as coisas são muito voláteis no […]

O tempo regulamentar se esgota para Israel. O governo Netanyahu está mais pessimista sobre o impacto de sanções internacionais e das negociações diplomáticas, sobre as quais nunca depositou muita fé. Com o desfecho frustrante e na ausência de uma ação militar americana contra as instalações nucleares iranianas, Israel poderá lançar seu ataque unilateral já no primeiro semestre de 2011. Existem advertências, como a do secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, de que tal ataque não funciona. Apenas adiaria o programa nuclear iraniano, que, na avaliação de boa parte da comunidade internacional, tem a bomba como objetivo final. Há também as advertências de que as consequências militares, geopolíticas e econômicas de tal ataque preventivo serão intoleráveis. O raciocínio de Israel é inverso. É a bomba […]

Existe corrupção no Brasil de Lula ou no Afeganistão de Karzai. Estamos chocados, chocados. mas a não ser que apareça boiando alguma novidade realmente podre, será preciso esperar o vazamento de alguns memorandos secretos da diplomacia americana sobre os vazamentos para termos uma noção mais precisa dos embaraços e danos provocados pela pirataria eletrônica do site WikiLeaks. O site está jogando no ventilador global 250 mil documentos supostamente confidenciais. Em princípio, sobrou para todo mundo: os EUA, seus aliados e seus inimigos. Como disse o historiador britânico Timothy Garton Ash, o vazamento é um pesadelo para o diplomata e um sonho para o historiador. Material que levaria 20 ou 30 anos para ser desclassificado ou descoberto está aí na praça digital. Alguns dos despachos vazados […]

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