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Na última coluna, eu falei de movimentações instigantes no mundo árabe em torno de um declínio de religiosidade, em parte como válvula de escape para dirigentes autocratas. Então, vamos agora ao mundo “persa” xiita, enfronhado em uma disputa por hegemonia com os árabes sunitas no Oriente Médio. Ali, a válvula de escape é o nacionalismo, numa movimentação instigante do regime teocrático. Quem acompanha meu trabalho há um tempão, sabe de minha convicção de que o Irã é um país sofisticado, com uma população que um dia irá se insurgir contra o nefasto regime teocrático. O dia parece distante. Esperanças de uma primavera persa foram literalmente massacradas em 2009 durante a fraudulenta reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Períodos de apatia da população […]

No meu comentário anterior, eu observei que os terroristas do Estado Islâmico estão acuados na Síria e no Iraque. O terror vive, mas não mais o tal do califado. Também observei que o regime genocida de Bashar Assad viverá, mas mantendo o controle sobre um território largamente reduzido. Usando um termo de favela carioca, não haverá pacificação em uma conturbada região do Oriente Médio. Teremos, isto sim,  o arrefecimento em algumas frentes de combate e o possível recrudescimento em outras. Vamos ficar apenas na Síria. Israel intensificou ataques aéreos contra posições militares do regime Assad. São alertas sobre uma possível nova guerra no Oriente Médio. A guerra civil na Síria nos faz esquecer o cansado conflito entre Israel e a […]

Em uma das atitudes mais inglórias em oito anos de governo, Barack Obama amarelou após fixar uma linha vermelha que não podia ser ultrapassada pelo regime genocida de Bashar Assad pelo uso de armas químicas contra o próprio povo sírio. Assad ultrapassou e Obama foi atropelado pela história. Em pouco mais de cinco meses de governo, Donald Trump engrossa a linha vermelha. Em primeiro lugar, para contrastar com o amarelo de Obama e entre as outras razões por ser impulsivo, não medindo as consequência e as complexidades do mosaico geopolítico do Oriente Médio. No entanto, existe também uma lógica plausível para engrossar a linha vermelha. Esta semana, o governo Trump disparou alertas contra Assad, advertindo que pagará um “preço pesado” […]

Na guerra de milícias teocráticas do Oriente Médio, não existem sinais de pacificação. Pelo contrário. O tiroteio ameaça se intensificar. Uma das grande milícias fica no Complexo dos Aiatolás. Lá existe um paradoxo: o chefe supremo é realmente maligno, empenhado em exportar terrorismo, sonha em ter umas bazucas nucleares e dá uma força para bandidos psicopatas como o sírio Bashar Assad. Mas, a sociedade é vibrante, com amplos setores querendo se livrar do sufoco religioso, escapar do isolamento e curtir a vida. A prova está na reeleição do presidente Hassan Rouhani. Ele é filhote do chefão da milícia, o aiatolá Khamenei, mas tem uma visão mais pragmática das coisas. Porém, sua margem de manobra é limitada num sistema híbrido que combina […]

É demais pedir cristalina coerência estratégica de qualquer líder do chamado mundo livre, ainda por cima de um noviço como Donald Trump. As pinceladas, porém, estão aí sobre o que devemos esperar da política externa do presidente eleito dos EUA: indiferença a valores como direitos humanos e democracia; melhores relações com a Rússia do igualmente indiferente Vladimir Putin nestas questões de valores, mais foco no combate ao terror islâmico e ceticismo sobre melhores relações com o Irã. No departamento de busca de alguma coerência, vamos tentar encontrar a conciliação entre os dois últimos tópicos: combate ao terror islâmico e mais hostilidade contra o Irã. No núcleo do combate ao terror, está o Estado Islâmico, sunita, que também é inimigo de […]

Vamos ser sinceros: uma longa agonia, mas Mandela foi a crônica da morte anunciada. Na mecânica habitual do jornalismo, o obituário estava pronto, sendo atualizado. Claro que meu obituário de Fidel Castro está mofando na gaveta digital. Aliás, poucas notícias no espetáculo midiático do memorial Mandela na terça-feira, no estádio de Soweto. O presidente sul-africano Jacob Zuma foi vaiado. E como estavam lindas a Charlize Teron e a primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt, a das fotos estilo selfie com o presidente Barack Obama. Claro, antes que eu me esqueça, há também a imagem do aperto de mão entre Obama e o ditador Raúl Castro, mas nada tão histórico que mereça um segundo parágrafo. De qualquer forma, os temas desta coluna não […]

Eu já escrevi aqui sobre o risco de personalizar em excesso decisões em política externa. Aquela história de Barack Obama ser isso ou aquilo quando decide isso ou aquilo (um agente da frouxidão, um agente de causas sinistras, um agente do imperialismo estadunidense, um agente da politicagem). A lição de casa deste domingão é literalmente uma lição de casa de como republicanos e democratas se posicionam em política externa. O foco de Robert Kaplan, da empresa de sacadas estratégicas Stratfor (rival do Instituto Blinder & Blainder?) é mais nos republicanos, mas quem não for preguiçoso e ler a pensata (nada grande) até o final verá como Kaplan coloca Obama no seu devido lugar. Embora republicanos neguem isto de forma furiosa, […]

No final de semana (e para fechar novembro), uma saideira iraniana, cortesia do Wall Street Journal. O tema são as consequências não intencionais. Nas negociações multilaterais, os EUA e seus parceiros querem desacelerar o programa nuclear iraniano (não mais desativá-lo totalmente, como Israel e Arábia Saudita exigem). Mas, o efeito pode ser o de acelerar o programa nuclear de outros países. Sucessivos governos americanos trabalharam para impedir que vários aliados, como Coreia do Sul e países árabes, possam enriquecer urânio, face ao risco de uso militar. Mas, ao aceitar agora que o Irã tenha este direito, embora supostamente sob rígido controle internacional, o risco é o de que as porteiras sejam abertas para outros países exigirem o mesmo direito. Como adverte […]

A coluna foi esta semana basicamente devotada à crise nuclear iraniana: as dúvidas quanto ao acordo da comunidade internacional com o regime e se também é sensato botar fé em alguma abertura sob o presidente Hassan Rohani, que hoje se movimenta graças à rédea um pouco mais solta do ardiloso líder supremo, o aiatolá Khamenei. Mas, não dá para terminar esta semana sobre dilemas sem um lamento: acordos como estes, assim como o da destruição do arsenal químico do ditador sírio Bashar Assad, são pactos com o diabo. No grande jogo estratégico talvez evitem a guerra regional, mas não impedem a sobrevida no poder dos Khameneis e dos Assads, que continuam matando sua gente e a dignidade humana. Não se trata hoje […]

Eu também tenho culpa no cartório. Personalizo demais o jogo da política externa. Isto simplifica as explicações sobre jogadas estratégicas mais complexas, sobre mudanças históricas ou sobre o processo decisório. Claro que estamos falando dele, nem preciso dar o nome, triplicado no título da coluna. Ele andando sobre a água, debaixo dela, boiando. Aqui na coluna, nos comentários dos leitores, temos de tudo, embora menos do que em tempos atrás daquelas caricaturas de chamá-lo de Hussein, de terrorista islâmico, de queniano, de antiamericano ou de emissário sinistro de uma nova ordem mundial. Entre o pessoal mais crítico (sim, existem muitos a favor dele e de sua guinada estratégica) há um esforço mais maduro (opa, nenhum dirigente sério quer este tipo […]

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