Sinagoga restaurada em Fes

Eu viajei desarmado para o Marrocos, desarmado de informações nutritivas sobre o país da África do Norte. Embarquei como refém da minha filha mais nova e de minha mulher, que tanto lobby fizeram para que fosse o destino familiar nas curtas férias de fim de ano. A opção de Mr. Blinder era América do Sul (Chile) e não a África do Norte.

Não me lembro de um embarque tão desinformado, para os meus parâmetros. Meu conhecimento enciclopédico sobre o Marrocos era de um país relativamente tolerante e tranquilo para os padrões do mundo árabe. Conhecia mais sobre Casablanca, o filme, do que a cidade real em si.

Minha filha, no entanto, queria conhecer um país árabe, ela moça tão viajada que aos 24 anos já conhece todos os continentes (no continente do Marrocos, Ana viajou nas férias de fim de ano, em 2016, para a África do Sul com uma amiga). Sem grana para esta nova empreitada, ela recorreu ao CEO do Instituto Blinder & Blainder e da Fundação Blinder. A Ceoa e ministra do Turismo da Fundação achou uma boa ideia e o CEO democrático (e submisso) se curvou à decisão.

O voo direto Nova York-Casablanca da Royal Air Moroc estava, para minha surpresa, apinhado de turistas americanos e não de “nativos”.  Na hora do embarque, fiz um rápido paralelo com minhas sucessivas viagens ao Brasil, com os aviões basicamente povoados por nativos brasileiros. Brasil, portanto, um país pouco atraente e perigoso para turistas. O Marrocos assusta bem menos, apesar dos fantasmas do terror islâmico.

E lá estava a turistada gringa, muita gente inclusive folheando os manuais turísticos. Mr.Blinder optou na viagem por assistir a lixos de Hollywood. E assim desembarcou em Casablanca com a mesma carga informativa do início da viagem.

Leitores, não vou fazer um diário de viagem neste texto. São mais as impressões judaicas do périplo de uma semana. Por insistentes pedidos de mulher e filha, a ideia era esconder a identidade judaica na viagem. Neste caso, 2/3 dos integrantes da minha excursão marroquina estavam armados de preconceitos.

De qualquer forma, prometi nunca me identificar como David, nome do meu pai, e meu nome de guerra nos EUA diante das dificuldades de interlocutores em um Starbucks na vida entender Caio. Tampouco me identifiquei como jornalista ao preencher o cartão de desembarque. Taquei um “aposentado”. Achei que merecia após celebrar 60 anos de idade e 40 de labuta jornalística em 2017. Ademais, aposentado era adequado ao perfil preguiçoso do viajante.

Judaicamente, eu sabia que já houve muito judeus no Marrocos. No entanto, somente ao longo da viagem e com algumas leituras posteriores soube que foram quatro levas migratórias, num processo iniciado depois da destruição do Segundo Templo. Claro que sabia também das centenas de famílias que se arrancaram para Belém e Manaus ainda no século 19. Na imagem de tolerância, sempre soube dos contatos do Marrocos com Israel e de André Azoulay, assessor do rei Mohammed VI (e pai de Audrey Azoulay, atual diretora da Unesco).

Como aposentado preguiçoso, eu contratei um guia. O simpático Magib, poliglota como era de esperar (árabe, francês, inglês e espanhol) deve ter desconfiado do meu judaísmo. Fazia questão de apontar ou nos levar nas escalas em Marrakech, Fes, Meknes, Chefchaouen e Casablanca para a “mellah”, o distrito judaico na cidade. Na narrativa de Magib, os judeus marroquinos que já perfizeram a maior população judaica no mundo árabe sempre foram tratados com tolerância.

Mesmo um preguiçoso aposentado como era o meu caso estava alerta para a distorção desta narrativa histórica, mas reconheço que o status atual dos remanescentes (menos de 5 mil em contraste aos 265 mil em 1948) é invejável na região.

E aqui está o paradoxo: minha família pedindo que eu me comportasse discretamente ou camuflasse meu judaísmo num país que dá a sensação de ser até mais seguro para os judeus do que a França, justamente para onde ocorreu uma “aliá” em massa depois da independência de Israel em 1948. E obviamente a Terra Prometida foi mesmo a dita cuja para o grosso dos judeus marroquinos. Li antes de escrever este texto que os refugiados marroquinos e seus descendentes já são 1 milhão em Israel, algo como 15% da população.

E uma desforra contra mulher e filha (uma delas) aconteceu num restaurante caça-turista em Fes, para onde fomos levados pelo guia para conhecer melhor a cultura local de cantoria e dança. Caímos fora antes da segunda apresentação da dança do ventre, quando nós, os turistas patetas, somos recrutados para o palco pela dançarina.

Havia duas mesas gigantescas perto do palco, barulhentas e cheias de pessoas vistosas, gente cafona mesmo. E tente adivinhar a procedência? Era um bando de cinquentões e sessentões,  turistas israelenses, todos eles nascidos no Marrocos ou filhos de refugiados. Caíam na farra com os músicos e a dançarina. O guia observava que nunca pegara esfuziantes clientes israelenses, pois eles não precisam, estão à vontade com a cultura local, mesmo estes espetáculos moldados para turistas de primeira viagem, com a trinca Blinder, cujo patriarca era advertido para maneirar no seu judaísmo.

E tem mais: a turistada em geral estava se sentindo bem à vontade. Os bandos de chineses estavam tirando foto do próprio umbigo enquanto caminhavam pelas vielas das medinas (a cidade velha). Obviamente não me aventurei a caminhar na calada da noite, mas em comparação à qualquer cidade brasileira, eu realmente me sentia para cá de Marrakech (e não para lá) na medina. Irritação mesmo apenas com os inevitáveis vendedores de tapete para os quais éramos direcionados pelos guias locais. A encenação é engraçada na primeira vez no souk, mas quando se converte em artigo no atacado, dá vontade de fugir num tapete voador.

Falando em turistas vistosos, a brava gente brasileira estava em todas as partes. Na visita à grande mesquita de Casablanca acabei conversando com o guia de uma tropa. Era um marroquino que morara dez anos no Tatuapé, em São Paulo. Com humor, disse que devia o seu trabalho de guia à novela O Clone, que transformou Casablanca em uma meca para turistas brasileiros.

Meu guia Magib tinha bom senso de humor, dizendo que os marroquinos são os argentinos da África do Norte, os primeiros e os melhores em tudo. E piscando para mim, garantia que no quesito de beleza feminina, era uma verdade. E como eu precisava ver para crer, reconheço que vestira com excesso meus preconceitos. Havia mais mulheres com a cabeça e o rosto descobertos do que eu estimara.

Magib era um excelente guia, preocupado em fazer os alertas apropriados. Nem expressava muito preocupação com segurança contra terrorismo. Seus alertas eram para o bom e velho furto e, com mais intensidade, para a segurança estomacal dos seus clientes gringos. Nada de comer o que não fosse cozinhado. A instrução era inclusive para escovar os dentes com água engarrafada.

Eu cumpri a palavra dada à família e fiz o possível para esconder meu judaísmo no Marrocos em nome da segurança e do temor com gestos de hostilidade. Nada igual a um senhor mais velho na companhia provavelmente da neta. Lá estavam dois assumidos judeus ortodoxos num voo entre Casablanca e Fes. Não era um cena de filme, mas de um Marrocos real que desarmou um pouco da minha preguiçosa ignorância sobre o país. Este Marrocos me enganou, ao contrário dos vendedores de tapetes. (Texto publicado na Tribuna Judaica em janeiro de 2018).

 

 

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18 Comentários em "Impressões marroquinas"

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José do Norte
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Caio, os tapetes são bonitos e tem bons preços?

Robson La Luna di Cola
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As time goes by… Play it again, Sam!

Pierre
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Boa noite, caro CEO.
Texto delicioso esse. Pena você não ter dançado com a bailarina!
Abraços

Rony
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Excelente Caio!

Guga
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Bom dia caro Caio Blinder,

Muito boa coluna,bela retirada estrategica.

Novocredo
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Que texto legal.

Queiroz
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Belo texto!
Descrição de excelente qualidade!
Feliz 2018! Abraço
Obrigado a todos pelos elogios, claro que recomendo Marrocos, como tantos lugares que ainda não conheço ou gostaria de revisitar, abs, Caio
PS- espero que próxima escala seja Japão e sempre quero retornar a Israel e à Espanha

Novocredo
Visitante

Já foi para Ucrânia? Seus antepassados eram de lá, né? Eu não fui, mas várias conhecidos meus foram e gostaram.

Thiago
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Moldavia.

Carmem
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Crônica deliciosa para um sábado preguiçoso!
A realidade é uma mestra para frustrar as expectativas.
Abs

Gui
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Caio, excelente texto, já entendi um pouco da sua visão judia nesta viagem Não sei se vc já tocou no assunto mas gostaria que vc falasse um pouco do entendimento dos judeus que moram no Irã e não reconhecem de certa forma o estado de Israel. Na minha infância tive… Leia mais >>
Robson La Luna di Cola
Visitante

Eu só iria para Marrocos se ainda fosse uma colônia francesa. Agora, não!!!

Marcio
Visitante

Bonito texto.
Hoje em dia e’ difícil achar jornalista que sabe escrever. Porisso não aposente! Aliás, não só porisso.

Marcio
Visitante

Porque será que marrocos não caiu na bagunça terrorista? Educação ou repressão (rima não intencional)

Marcia Soares
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Vale um roteiro cinematográfico sobre um turista anônimo, quase acidental, rs, muito bom, espero que tenhas aproveitado a aventura.
Abs e feliz 2018 às meninas parceiras

victor marques costa
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Mais uma saborosa Crônica , de leitura leve e agradável .

Alex Wie
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Olá que bom que gostou, o numero de viajantes brasileiros para o marrocos é inmenso, e sempre voltam satisfeitos com a visita ao destino e suas confusões locais rs.

Thiago
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Texto legal!

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