Recruta Blinder sempre bate continência e deixa seu posto avançado nas bandas do rio Hudson em Nova York e retorna à base quando convocado pelo comando da comunidade judaica brasileira. Assim que meu amigo Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), me convidou para participar da convenção em São Paulo em novembro, eu topei sem pestanejar. E nem sabia qual seria a missão do recruta Blinder.

E imaginem minha satisfação quando eu soube que minha responsabilidade seria entrevistar no “palco” David Harris, diretor executivo do American Jewish Committee, um dos judeus mais influentes dos EUA e, por tabela, do mundo. Influente nem dá para começar para dar a dimensão de quem é Harris. Qualquer press release sobre ele destaca sua eloquência. E eu já tinha tido a prova quando vi pela primeira vez David Harris “no palco” falando na convenção “latina” do American Jewish Commitee em Miami.

Logo, meu trabalho na Conib seria de muita responsabilidade, porém relativamente fácil. Obviamente não queria fazer uma entrevista chapa branca. E fiz o possível para cutucar David Harris para apimentar o bate-papo.

Harris dirige o AJC em um momento especialmente dramático das relações entre a comunidade judaica americana (e a Diáspora em geral ) e Israel. E nestas horas, ele não mede palavras para expressar indignação com a postura do governo israelense de rescindir a decisão de criar um pavilhão igualitário para as orações no Kotel (O Muro das Lamentações). Nestas horas, de fato, Harris fala em nome da diáspora, plenamente consciente da cisão que se agrava com Israel.

E nem poderia ser diferente. É mandamento de alguém como David Harris defender o Estado de Israel, mas isto não significa se curvar a um governo de plantão ou ao joguinho político em Jerusalém.

No papo na Conib, Harris também foi coerente com outro mandamento do America Jewish Committee: o bipartidarismo.  Não faz sentido tomar partido automático de republicanos ou democratas. Ali no palco em São Paulo, ele bateu tanto em Donald Trump (por ser Trump) e no antecessor Barack Obama, em particular por promover o acordo nuclear com o Irã, que Harris considera nefasto.

Eu confesso ter minhas divergências com Harris nesta questão nuclear, mas não queria roubar a cena no papo da Conib, Afinal, eu era o entrevistador e não o entrevistado. Faz sentido questionar um entrevistado, mas não atormentar sua vida.

Precisava dar espaço a Harris nas suas respostas e assim ele também não poupou críticas a Benjamin Netanyahu (aqui nenhuma objeção de minha parte), quando criticou frontalmente o fato do primeiro-ministro israelense ter justamente rompido o mandamento e se enfronhado no jogo partidário americano. Obama e Netanyahu baixaram o padrão das relações bilaterais com as pirraças mútuas.

A sabedoria de Israel sempre foi buscar apoio bipartidário e, no entanto, Netanyahu é um político israelense acintosamente alinhado com os republicanos. É o mesmo erro que tem sido cometido pelo Aipac, o lobby pró-Israel em Washington.

Não existe nada mais irônico hoje em dia do que a aflição de David Harris para defender a comunidade judaica americana quando suas grandes ameaças são internas, especificamente a passagem do tempo.

David Harris é filho de sobrevivente do Holocausto. Os judeus americanos obviamente não estão sujeitos a este tipo de risco existencial, embora o antissemtismo esteja em alta no país na era Trump e o motivo é sabido: supremacistas estão à vontade para marchar nas ruas hoje em dia. Claro que nem todo apoiador de Trump é nazista, mas todo nazista gosta deste presidente.

Para a comunidade judaica, Trump é um divisor de águas. Nenhuma minoria no país, exceto os negros, exprime tanta ojeriza pelo presidente como os judeus americanos. E, no entanto, Trump não apenas é íntimo de Netanyahu como na sua base de sustentação estão defensores incondicionais de Israel, como o movimento evangélico.

Havia tempo para uma hora de conversa com Harris e era uma pena que eu não poderia me estender no dilema sobre quem apoia Israel e como nós devemos tolerar este tipo de apoio. Basta ver a dinâmica política brasileira, que apresenta algumas semelhanças com a americana neste tópico. O movimento evangélico (a bancada da bíblia) é firmão no  apoio a Israel e Jair Bolsonaro se diz completamente comprometido com a causa. Será justa a nossa causa ao abraçar convictamente este pessoal?

David Harris tem outros dilemas sobre quem ou não abraçar. Ele diz que jamais irá enfrentar os “Haredim”, embora não sejam sua gente. Seu judaísmo é abrangente, do outreach e não o do gueto. Harris quer somar e diz que sua missão é abraçar quem tiver vínculo nos EUA com o judaísmo. Somar e não reduzir.

Harris tem esta urgência para somar e por este motivo está preocupado com o desgarramento da juventude judaica nos EUA. Não se trata apenas do fosso alargado por Trump e as posturas assumidas pelo governo de plantão em Israel, mas o mero fosso do tempo.

O Holocausto está distante, mas a Guerra dos Seis Dias, que foi uma guerra ainda existencial para Israel, teve lugar há mais de 50 anos. Assim, não existe um senso de urgência para defender Israel, que hoje está em uma posição relativamente cômoda no Oriente Médio. A questão palestina é secundária, na verdade pró-forma para o mundo árabe, e as cisões regionais são bem mais acentuadas do que a protocolar frente ampla contra Israel. Esta aí a cada vez menos discreta aliança entre israelenses e sauditas contra o inimigo comum que é o bloco xiita liderado pelo Irã.

Para Harris, boas notícias têm um reverso negativo, diante da dificuldade de congregar intensamente a diversificada comunidade judaica. Claro que estamos diante de um ativista obstinado. Israel esta aí para celebrar 70 anos em 2018, país mais maduro, com os desafios de gente madura, mas, no entanto, é preciso manter um certo ardor juvenil e vibrar.

David Harris está na estrada há um tempão. É uma figura lendária por seu ativismo. Ele foi inclusive preso em tempos pré-históricos quando estava em Moscou, detido pelo então regime soviético por seu trabalho para tirar os judeus do país. Ele também foi muito ativo no cinematográfico resgate de judeus etíopes.

Imaginem, Harris foi a figura que conseguiu mobilizar 250 mil pessoas em uma manifestação a favor dos judeus soviéticos em Washington em 1987. Não tive tempo de perguntar, mas sigo curioso: quando Harris irá conseguir novamente mobilizar 250 mil pessoas nas ruas a favor de qualquer causa judaica?

São desafios imensos. Harris é um veterano e eu como judeu de dupla identidade (aferrado à minha tribo de judeus paulistanos, mas realmente assimilado no judaísmo norte-americano), sou grato por podermos contar com alguém como David Harris no timão (pegaram o duplo sentido da palavra?).

Na convenção da Conib, eu tentei enumerar desafios e paradoxos dentro do judaísmo na Diáspora e o seu cada vez mais espinhoso relacionamento com Israel. David Harris claro que tem alguma responsabilidade diplomática e não pode simplesmente chutar o pau da barraca. Na medida do possível para alguém com sua visibilidade, foi bastante franco.

Ele se mostra plenamente consciente dos desafios e dos riscos em razão do fosso que se alarga em várias questões. Mesmo assim, Harris não perde o otimismo. Não se trata de fachada política. Pelo contrário, um ativista precisa ser otimista e acreditar na sua causa. Não tenho dúvidas que estamos em boas mãos com David Harris e fico feliz em saber da crescente parceria entre o American Jewish Committee e a Conib. (Texto publicado na Tribuna Judaica).

 

 

 

 

 

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16 Comentários em "Uma conversa (franca) com líder do judaísmo americano"

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Otto Heinrich Wehmann
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Claro que nem todo apoiador de Trump é nazista, mas todo nazista gosta deste presidente. – Estou chocado!!!!!

Vera Lucia
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A chegada à Israel de milhares ou milhões de judeus soviéticos criou a cisão entre os israelenses e os palestinos. Os soviéticos passaram a ocupar postos de trabalho que antes cabiam aos palestinos. Na outra ponta, chegou gente muito qualificada que começou a desenvolver armamentos e equipamento de defesa.

maisvalia
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Mais uma pérola de anti-semitismo disfarçado de análise peteca.
Esquerda brasileira sempre foi antisemita, a gorda não poderia ficar de fora.

Marcio
Visitante
O Harris esta corrretissimo. Porisso não pode dar mole pra quem humaniza os inimigos de Israel. também concordo que o acordo co Israel foi a maior me@da que ocorreu e coloca de fato a própria existência de Israel em risco. Não consigo imaginar como você pode (passado) achar esse acordo… Leia mais >>
Pedro Lemos
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Eu tomaria muito, mas muito cuidado, ao colocar Bolsonaro (e Trump) na turma pró-Israel. O discurso formal, cercado de mise-en-scène, destoa do roteiro circulante na esgotosfera. . A meu ver, a relação dessa gente com os judeus soa mais ao mote “inimigo do meu inimigo é meu amigo”, um caso… Leia mais >>
Marcia Soares
Visitante

Pedro Lemos mitou nessa, concordo plenamente. Supor que os evangélicos apoiadores do Bolsonaro só porque mimetizam rituais e indumentárias não usariam seu arsenal de ódio às diferenças contra judeus seria ingênuo.
Abs

maisvalia
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Sim, o lado certo do muro é a esquerda, vegetariana psdbosta fabiana ou carnívora peteba bolivariana. Pode escolher sem erro, miguinho, os dois detestam Israel.

Pedro Lemos
Visitante

Judeus liberais nos USA votam em peso e fazem gordas doações aos Dems. O mesmo ocorre no mundo. Judeus ortodoxos vão mais com os Reps. Esquerda moderada é pró-Israel. Só a esquerda radical é contra, eco de alianças passadas entre seus terroristas.

Renato
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Bem, não sou bolsonarista nas entre ele e um petista voto nele. Não tenho nada contra Israel. É natural que se não tiver opção, va de Bolsonaro. Bem de longe isso me torna antissemita. Nem.acho que Bolsonaro seja. Se fosse, votaria nulo.

Jorge Silva
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É uma sinuca de bico. Na verdade os eleitores de Bolsonaro e/ou bancada evangélica também usam o mote “inimigo do meu inimigo é meu amigo” (em relação aos muçulmanos). Um ex-colega de trabalho evangélico (Baptista) disse que o retorno dos judeus a Israel era necessário para a Segunda Vinda de… Leia mais >>
Guga
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Maior desafio foi ler o textão,eheheheheh Para variar,sobram criticas ao laranja até sobre movimentos pre existentes ao novato na politica. Merkel faz mrd na Europa,culpa do Trump,que nem candidato era,mas para a imprensa a GBR,a unica que resistiu ao avanço nazista e comunista dinate do entreguismo de outros paises,de repente… Leia mais >>
Queiroz
Visitante
Boa entrevista, dá conta da complexidade política que é trabalhar a sobrevivência multiterritorial do povo judeu. Concordo que se deve investir no bipartidarismo, não acho que Israel tenha uma fratura com o Partido Democrata per si. O problema é Barack Obama… fez tudo o que podia pra transformar a vida… Leia mais >>
Guga
Visitante

Culpa do Bibi,que ousou desafiar Barack Obama que comprou um acordo com o Irã,eheheheheh

victor marques costa
Visitante
O movimento evangélico (a bancada da bíblia) é firmão no apoio a Israel e Jair Bolsonaro se diz completamente comprometido com a causa. Será justa a nossa causa ao abraçar convictamente este pessoal? – – – – – – – – – – – – Francamente caro Guru , a… Leia mais >>
Renato
Visitante
Penso que na questão judaica, não há porque ter receio de Trump. A uma, porque tem até genro judeu. A duas, se há preconceito hoje é contra parte dos árabes ou iranianos. Estes muito perigosos. Trump sabe que Israel não é inimigo dos EUA. Todos sabem. Se alguns dentro de… Leia mais >>
Peter
Visitante
Pois é , Bolsonaro , Trump e evangélicos não servem para a causa judaica ?! Então vejamos , quem serve ? Os muçulmanos ? A esquerda ? Os governos de centro , como o próprio Brasil que a exemplo da maior parte do mundo , tem votado sistematicamente contra Israel… Leia mais >>
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