Como meus leitores sabem, foi uma semana melancólica para mim com a peremptória demissão da Jovem Pan num domingo à noite, depois de 23 anos de labuta. Ainda me choco com o estado da minha profissão após mais de 40 anos de ofício.

Um consolo é o presente abaixo. Quando contei ao meu querido amigo Ricardo Setti o que acontecera, no meio de sua resposta, vieram as impressões da crise catalã.

Além de amigo, Setti foi meu colega de VEJA.com e tem um pouquinho mais de estrada do que eu (mais de meio século). Está numa fase bacana da vida, morando em Barcelona com o seu clã. Jornalismo está no seu DNA e mesmo “aposentado” dá este olé. Queria que eu editasse, perfeccionista que é. Disse para relaxar, pois acho legal manter o tom informal. Boa leitura.

***
Ricardo Setti

Eu estou no meio da confusão catalã e, uma raríssima vez em mais de 50 anos de carreira, assistindo a tudo como mero cidadão, sem a preocupação — que poderia ter, mas deixei de lado por ora — de anotar, entrevistar, analisar, relatar, escrever. Ah, que alívio — embora eu adore a profissão.
Haveria muito a dizer sobre a tal confusão, mas vou me centrar num ponto assustador. Goebbels se instalou aqui, is alive and well entre os separatistas, o que inclui parte da mídia local.
Os separatistas repetem como robôs, todos eles que concedem entrevistas, sejam políticos, militantes, líderes estudantis, dirigentes de ONGs etc, mentiras descaradas mil vezes por dia. Ou são mentiras, ou são escandalosas omissões de verdades. Jamais, nem em uma única vez, por exemplo, qualquer deles, a começar pelos principais responsáveis pela loucura, disseram de onde virá o dinheiro para, digamos, formar Forças Armadas, por mais modestas que sejam, instalar um corpo diplomático, embaixadas pelos principais países, instalar um Correio e, sobretudo, cumprir as promessas de que tudo, rigorosamente tudo, vai melhorar com a “República Catalã”: aumento de salários, aumento de emprego etc etc.
Isso num “país” que deve 70 bilhões de euros, cujos bônus são considerados “basura” (lixo) pelas agências de classificação, que não estará sob o amparo do Banco Central Europeu e cujos principais (e gigantescos) bancos privados mudaram suas sedes para outras regiões, por temor do futuro, sobretudo o de ficarem fora da União Europeia. Quem vai financiar essa gente?
Mentiram que ficariam na União Europeia (quando basta o voto de um único país para impedir isso, sem contar o precedente que abriria um precedente grave para países com minorias separatistas, como a França, a Bélgica, a própria Itália).
Nunca mencionaram que moeda utilizariam, e só disseram que seria o euro nos dias anteriores à “declaração” de independência, que paradoxalmente foi imediatamente suspensa. Mas como, se para isso precisariam do OK da UE? Mentiram que as empresas permaneceriam firmes e fortes na Catalunha — e, em 10 dias, já mudaram sua sede em duas semanas nada menos do 700 delas, algumas gigantescas, outras importantes e também simbólicas, como a fabricante do cava (o champanhe catalão) Codorníu, fundada em 1555.
Serão párias internacionais, mas quem explica isso para a juventude alegre que vai para as ruas falar em “presos políticos” para dois camaradas que lideraram uma manifestação obstrutora da Justiça e cuja detenção provisória foi decretada por uma juíza, com base na lei? Jovens que cresceram desde o maternal em escolas públicas que ensinam, comprovadamente, o ódio não apenas ao Estado espanhol, mas à Espanha mesma, reinventando a história, como comprovadamente fazem e fizeram — até os livros de ficção histórica mentem sobre o passado.
Boa parte dos catalães, sobretudo no interior, só assiste à TV pública catalã, que faz um “jornalismo” sórdido, enviezado, odioso, mentiroso, distorcido. Chama-se TV3 e é um gigantesco cabide de empregos para independentistas — tem nada menos do que 5 canais diferentes e correspondentes no mundo todo, inclusive em lugares como Pequim ou Moscou.
Se houver 30 manifestantes contra o governo em uma cidadezinha do interior, lá vão eles com unidades móveis, mostrar o que está ocorrendo e entrevistar um monte de gente, todos do mesmo lado.
Os jornais claramente independentistas — vários pequenos e dois de porte médio a grande — são escandalosamente subsidiados pelo governo. Qualquer um percebe: não têm anúncios!
Uma investigação feita por jornalistas independentes (aqui os há, em geral em publicações na web) mostrou que nos últimos quatro anos o governo repassou por baixo do pano 20 milhões de euros para uma ONG chamada “Omnium Cultural”, que de cultural não tem nada — é uma das duas grandes promotoras de manifestações de massa contra o governo central.
Parece que exagero, mas estou absolutamente pasmo de ver isso se passando em plena Espanha democrática — em alguns aspectos, este é um país mais democrático e libertário do que a França. Os separatistas falam como se vivêssemos sob a bota de Pinochet! E a Catalunha tem tanta ou mais autonomia do que um Estado americano. (Até a Guardia Civil, polícia competentíssima e eficaz, e a Policía Nacional, os dois corpos de segurança pública espanhóis, deixaram a Catalunha anos atrás mediante acordo para que a região pudesse ter polícia própria, que denominaram “Mossos d’Esquadra”. O governo mantém pequenos contingentes por aqui para em alguns casos cumprir o papel de Polícia Judiciária ou tomar providências como emitir passaportes.)
O pior é o clima de “estrela amarelas” que se vive, silenciosamente, mas o tempo todo: quem não é independentista é apontado, donos de pequenos comércios que não falam catalão perdem clientes — além de serem obrigados por lei a terem placas em catalão –, crianças filhas dos restantes integrantes da Guardia Civil ou da Policía Nacional chegam a ser discriminados por professores em escolas (imagine as crianças), todo o ensino público é feito em catalão (espanhol só a partir dos 7 anos de idade, e apenas DUAS HORAS por semana), sair com a bandeira da Espanha às ruas era impensável até dias atrás — e por aí vai.
Não estou exagerando.
No domingo, 8 de outubro, porém, os catalães que se consideram espanhóis finalmente saíram do armário — uma colossal manifestação pela unidade da Espanha que reuniu um milhão de pessoas. A polícia local, como sempre ocorre, diminuiu o total para 350 mil pessoas. A partir daí, felizmente, começaram a pipocar bandeiras da Espanha nos balcões dos edifícios, em automóveis etc.
A sociedade está fraturada, rachada ao meio, e a culpa é desses imbecis independentistas que querem criar fronteiras numa época em que o progresso humano deveria consistir em aboli-las aos poucos. Um historiador daqui disse uma coisa belíssima dia desses: “As fronteiras são cicatrizes feitas na pele do nosso planeta com sangue e fogo pela História”.

 

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16 Comentários em "A imbecilidade separatista catalã"

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Primeiro cumprimentar o guru e o Setti, pelo brilhante e angustiado artigo. Muito bom mesmo.
Depois a gozação:

“A polícia local, como sempre ocorre, diminuiu o total para 350 mil pessoas”
Aqui o datafolha daria 2 milhões se fossem petistas e 100 mil se fossem antipetistas, hehehehehe

Guga
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Enquanto nao relacionarem a crise provocada por aqueles que defendem a utopia de um mundo sem fronteiras politicas pressupondo o absurdo de um governo unico,com o desejo separatista daqueles que sofreram com uma taxa de desemprego altissima,jovens principalmente,continuarão analisando esses movimentos como causas e não como consequencias. A Espanha foi… Leia mais >>
Robson La Luna di Cola
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As pessoas se esquecem que TODO movimento social é impulsionado por PROBLEMAS REAIS. As soluções exigidas podem ser equivocadas, mas os problemas SÃO REAIS.

Guga
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la lunem di koller,ahahahahahah

Robson La Luna di Cola
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Vão correndo até o site The American Conservative e leiam o artigo: “Each Traditional-Nationalist Movement Has Common Cause”. Trecho do texto: “Europe is rejecting, resisting, recoiling from “diversity,” the multiracial, multicultural, multiethnic and multilingual future that, say U.S. elites, is America’s preordained mission to bring about for all mankind.”. Estamos… Leia mais >>
Guga
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È o mercado atropelando paises,é o pequeno produtor do delicioso jamon espanhol vendendo sua empresa para grandes grupos.Esse movimento ocorreu e vem ocorrendo no Brasil tambem,na crise se acelera porque abrem-se mais oportunidades. Para essa turma,paises,patriotismo,nacionalidades,moedas,linguas,culturas e leis diferentes apenas retardam o ´´progresso´´,são complicometros,deveriam um dia acabarem num museu para… Leia mais >>
Robson La Luna di Cola
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E tudo isso gerando mais concentração de renda. O fim da classe média, proprietária de pequenos e médios negócios regionais. Tudo isso que está acontecendo era perfeitamente previsível. Mas a ficha não cai… Depois, os “especialistas” ficam espantados quando acontecem fatos imprevistos e trágicos na história da humanidade!!!!!

Guga
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Exato,concentra renda,e como.

Não,a ficha não cai,o progressismo quando bate no muro culpa o muro,depois manda demoli-lo.

Rubem
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Bom o textão. Eu estou é preocupado com o belo principado de Andorra. Vai que esses malucos resolvam anexá-lo? Afinal é o único país onde o catalão é língua oficial. Rubem PS Para quem nunca ouviu falar, Andorra é um principado nos Pirineus encravado entre a Espanha e a França.… Leia mais >>
Garcia
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É por isso que até o ditador Maduro defende a separação… Olha quem está por trás da iniciativa de independência da Catalunha da Espanha: Não é nada de muito complicado e basta ter um pouco de astúcia: a esquerda primeiro tenta dividir, em seguida centralizar, depois desarmar, conquistar, demolir, calar… Leia mais >>
Jorge Silva
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Excelente artigo. É o que acontece quando o sonho (promessas de que tudo, rigorosamente tudo, vai melhorar com a “República Catalã”: aumento de salários, aumento de emprego) se encontra com a realidade (dívida bilionária, custos com a manutenção de um governo próprio). Sempre fui a favor de auto-determinação de povos… Leia mais >>
Leonardo M.
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A melhor solução era ilegal, mas teria sido fazer um plebiscito e fazer campanha pelo voto de união, expondo toda essa mentirada do movimento independentista. Seria um arsenal contra a secessão.

Nehemias
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Caio, Eu não sou necessariamente contra o separatismo catalão. Há uma história ai, prefiro que eles continuem ligados a Espanha, autonomos, federados, ou confederados, mas tem a coisa do Reino de Aragão, da lingua e cultura diferenciadas. É meio como a Escócia e Quebec, prefiro que continuem unidos, mas faz… Leia mais >>
Renato
Visitante

Por trás dessa suposta irracionalidade há algo muito pesado. A globalização está sendo contestada em todos os lugares. Vai junto a democracia. Guerra tribal seria o nosso futuro? Cada um brigando por si e o Estado sem conseguir controlar a barbárie?

Thiago Teixeira
Visitante

A Secessão está sendo conduzida pelas forças erradas. Mas o fato de ser algo bom há de suplantar os problemas iniciais.

https://m.youtube.com/watch?v=-pAkhpGVwjE

Alex Wie
Visitante

O que impressiona, sempre é , o grau de cultura da população x a ignorância opcional.
E depois quando um país com a bandeira semelhante de Cuba…, não dá para levar a sério

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