Nos anos 70, a Espanha deu uma lição ao mundo sobre como fazer uma transição, a transição da ditadura franquista para uma democracia ao estilo europeu. Quarenta anos mais tarde, as lições de como negociar parecem esquecidas e não sabemos exatamente qual será o rumo da transição catalã.

O ardor dos secessionistas catalães culminou num referendo de números enganosos: 90% de apoio à independência, mas apenas 42% de participação eleitoral, ou seja, a maioria dos eleitores não endossa o divórcio com a Espanha.  Em termos meramente técnicos, o caótico referendo de domingo passado foi ilegal. Nem se fala então da decretação unilateral de independência prometida para a semana que vem.

O movimento secessionista tem uma massa cheia de convicções nas ruas. Isto não quer dizer que tenha apoio esmagador da população catalã (e vamos lembrar que gente de todas as partes da Espanha e do mundo vive na Catalunha). O ardor da mobilização foi esquentado pela reação truculenta do governo central, agora mal casada com a irresponsabilidade das autoridades da Catalunha.

A radicalização secessionista e a truculência de Madrid tornam anacrônicas ideias que pareciam dignas de negociação na semana passada, como autonomia reforçada para a Catalunha. A truculência levou a exageros da outra parte, como acusar o governo de Mariano Rajoy de reeditar métodos franquistas. Eu vejo mais como uma atuação desastrada para refrear o ímpeto secessionista. É um erro de custo alto.

Para onde vamos agora? Há pouco mais de 20 anos (Canadá e Quebec) e em 2014 (Grã-Bretanha e Escócia) tivemos um comportamento maduro. Nações democráticas dispostas a aceitar a possibilidade de divórcio. Não aconteceu e imagine que, no caso do referendo de Quebec em 1995, somente 50,58% votaram contra a independência.

A realidade hoje na Catalunha se revela mais dramática, imprevisível e ágil, diante do cenário de decretação unilateral de independência na semana que vem.  A Europa toma susto atrás de outro. Basta lembrar o que foi o Brexit no ano passado.

Parece-me difícil a esta altura do jogo recolocar a transição em trilhos mais consistentes. Uma proposta no ar é os dois lados aceitarem a realização de um novo referendo com um patamar de no mínimo 60% de votos a favor da independência para ser, não apenas legal, mas legítimo e robusto.

 

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28 Comentários em "A transição catalā (para onde?)"

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Sinuca de bico.

Leonardo M.
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Infelizmente, a melhor saída era vedada pela constituição espanhola: permitir a secessão das comunidades autônomas. Só uma democracia muito madura, com séculos de experiência – como a britânica e a canadense -, para por em marcha um processo desses de maneira civilizada. Além disso, seria necessário um líder mais forte… Leia mais >>
Guga
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Bom comentario.

Bruno barreto
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Fico ca pensando como vai ficar o futebol….acabou o camp espanhol…

Alberto
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Sua conclusão e’ tendenciosa e não corresponde a realidade dos fatos.58% não foram votar, não porque sejam contra a independência, mas porque a maioria desses 58%,foram impedidos de votar pela confiscação das urnas e cédulas de voto.Eu sei que você não e’ favorável a independência catalã, Caio, mas uma coisa… Leia mais >>
Alberto
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eco.pt/2017/09/30/catalunha-policia-fechou-mais-de-metade-dos-2-300-locais-de-voto
Meu caro, nao é isto que eu pedi para voce provar, abs, Caio

Alberto
Visitante
Parece que você não leu bem o que eu escrevi.Eu disse:” a MAIORIA desses 58% foram impedidos de votar”,e não que TODOS 58% foram impedidos de votar.1300/2300=56.5% que e’ mais do que 50%.Portanto,maioria dos locais de votação fechados pela força.Assumindo que o numero de eleitores por local e’ um valor… Leia mais >>
Pedro Bouvetiano
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Como Estatístico, posso dizer que qualquer resultado de pesquisa onde somente 40% da população participou não pode ser levada a sério.

É só fazer outro plebiscito e ter no mínimo 60% da população participando.

Guga
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Como estatistico voce deveria saber que a amostra utilizada em pesquisas é bem menor que 40% da população. Discute-se se os 58% que nao votaram confirmariam o si ou não,lembrando que o turnout de eleições livres,vai quem quer,nunca chega a 100% dos eleitores,ou seja,mesmo sem a presença policial supondo que… Leia mais >>
Pedro Bouvetiano
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Você está tentando ensinar padre a rezar missa cantando forró universitário, colega.

Guga
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Reformule o primeiro paragrafo porque voce escreveu uma besteira.

Pedro Bouvetiano
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E verdade. Na correria não ficou claro.

Quis dizer que o resultado de votação, onde somente 40% da população votou, não pode ser levada a sério.
https://en.wikipedia.org/wiki/Ecological_fallacy

Guga
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Agora sim,no entanto nao sei quais paises obrigam turnout maior que 50%.

Lembrando que a Cataluna é um caso especifico,é um estado não um país.

De qualquer maneira 90% dos 40% votaram sim,acho que voce entendeu meu ponto.

Abs

Renato
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Acho que ninguém sabe onde vai dar a pretensão catalã, mas que a violenta ação policial uniu mais a Catalunha, uniu. Uso de gás pimenta, jatos d’água etc…fazem parte da ação policial. Pontapés, saltos com os dois pés em cima das pessoas, empurrões escada abaixo lembra mais o franquismo. A… Leia mais >>
Novocredo
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O caso foi muito mal conduzido pelo primeiro-ministro. Ele será o responsável por um desfecho ruim para ambos. A Catalunha sozinha não alcançará o que aspira. A UE não poderá facilitar a vida dos catalães sob pena de fomentar outros divórcios.

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” Trendy intellectuals always take action
For every cause that’s ever been in fashion
Weekend revolutionaries protest and sing
Because they’re dedicated followers of any old thing
They got every solution for every revolution”
Ray Davies

Guga
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Compareceram 42% por causa da ameaça policial e da pancadaria,um erro estupido do Rajoy. Nem um novo referendo Madrid pode correr o risco, se aceitarem que empurrem-o para daqui uns 2 anos,caso contrario a Cataluna vai transformar-se num país. È aquilo que voce escreveu,vai ter referendo atras de referendo,nao somente… Leia mais >>
Jorge Silva
Visitante
Por que o governo espanhol não age como o governo britânico no referendo da Escócia? Que faça uma votação tecnicamente legal e, se for o caso de vitória separatista, que aceitem o resultado. Pessoalmente, se eu fosse catalão, seria contra a secessão, pois vivendo num país democrático inserido na UE… Leia mais >>
Gabrielxxx
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Alguém pode me esclarecer a importância econômica da Catalunha pra Espanha?

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Bem grande, acho que 1/3 do PIB.
19%, abs, Caio

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Ok.
Pensei que era mais, pois são 16% da população.

Guga
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20% seria uma paulada para a economia espanhola que ainda recupera-se.Os jovens catalões precisam tomar cuidado,saber se a Cataluna é auto sustentavel.Um país demanda mais instituições que um estado,portanto e teoricamente cria-se mais gastos publicos.Como o movimento é de esquerda,apesar que isso na Europa não quer dizer muito,atentarem para o… Leia mais >>
Jorge Silva
Visitante
E os bascos? Estranho mas depois de tantos anos de luta (inclusive com grupos terroristas), só 30% defende a separação da Espanha: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,pais-basco-simpatiza-com-catalunha-mas-quer-preservar-sua-paz,70002019796 “Na região, onde os separatistas são cerca de 30% dos 2 milhões de habitantes, mesmo aqueles que preferem a unidade espanhola defendem mais autonomia e o ‘direito… Leia mais >>
Pedro Bouvetiano
Visitante
Caio, No caso da Escócia, houve um problema. O discurso do Cameron era: Se vocês querem tanto ficar na UE, vocês não podem sair do Reino Unido, porque não serão automaticamente aceitos na UE. Daí deu no que deu, e agora uma significante parte da Escócia quer sair do UK,… Leia mais >>
Nehemias
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Secessão é um negócio complicado. De modo geral, as constituições, por mais progressistas que sejam, não as preveem. A nossa CF, que criou direito pra tudo (muitas vezes sem lastro em deveres) já começa ” “(…) Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e… Leia mais >>
Nehemias
Visitante
Os ingleses, porém, podiam dar uma lição aos espanhois. Escócia e Pais de Gales são parte de um Reino Unido, que pode comportar inúmeros graus de autonomia, conforme as circunstâncias. Até seleção a Escócia tem. Se a Catalunha tivesse a sua seleção e jogasse na Copa do Mundo, pra que… Leia mais >>
Igor
Visitante
O caso do Quebec e mesmo da UK são diferentes do caso Catalão no contexto puro da EU. Li um depoimento de um Check, de que a noção nacional perde força aos Países dentro da EU e que a “municipalização”, as regiões nonde as pessoas moram façam mais sentido. Ou… Leia mais >>
Nehemias
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Manifestação em Barcelona leva quase um milhão (400 mil segundo a Polícia) contra a separação e a favor da unidade da Espanha. Considerando que Barcelona tem 1,5 milhão de habitantes é evidência fortíssima que a população está, no mínimo, dividida. Movimentação de empresas par fora da Catalunha pode estar ajudando… Leia mais >>
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